Comportamento adolescente deve provocar mudança no combate à propagação do HIV
O último boletim do Ministério da Saúde traz um dado preocupante: 12% dos casos de Aids no Brasil são de pessoas entre 13 e 24 anos. Essa constatação, mais observada entre jovens do sexo masculino e de baixo poder aquisitivo, está provocando uma revisão da política de prevenção de Aids no País. Os especialistas chegaram à conclusão de que informar sobre os riscos da síndrome não basta. É necessário mostrar que vale a pena evitá-la.
O que está faltando para uma maior conscientização dos jovens brasileiros com relação ao grave problema? Não se pode dizer que essa significativa parcela - 12% - da juventude brasileira tenha contraído o vírus HIV por falta de divulgação sobre os riscos do sexo sem proteção. O uso do preservativo, a popular camisinha, faz parte do cotidiano do brasileiro há mais de duas décadas. Diversas campanhas alertando para o perigo da Aids, com a utilização de todos os meios de comunicação, foram e continuam sendo desenvolvidas pelas autoridades. Os jovens crescem vendo e ouvindo essas mensagens e muitos deles recebem educação sexual nas escolas, onde a importância do chamado sexo seguro é exaustivamente ressaltada.
Fatores culturais pesam nessas estatísticas. A despeito da maioria da população estar consciente dos riscos, ainda existe muita gente adepta da simplória opinião de que Aids é um problema de homossexuais. Alguns jovens pensam que a síndrome nunca os atingirá: é uma coisa que acontece com 'os outros'. Enquanto persistir essa mentalidade, o vírus HIV continuará a fazer mais vítimas.
Outro fator pode ter contribuído para um certo relaxamento na prevenção da Aids: o sucesso obtido na redução do número de mortes graças ao coquetel de medicamentos que inibe a reprodução do vírus dentro do organismo. Os óbitos por Aids caíram 50% entre 1995 e 1999. A Aids deixou de ser necessariamente ligada à morte. Muitas pessoas convivem hoje com o vírus HIV e estão perfeitamente integradas na sociedade. Há a tendência de a Aids passar a ser encarada como o diabetes e outras doenças incuráveis, mas que podem ser controladas através de um tratamento metódico e rigoroso.
Ressalte-se ainda que o Brasil é o único país em desenvolvimento em que os remédios para o controle da Aids são gratuitos. A política brasileira de combate à doença é apontada como exemplo para outros países. Desde quando começou a distribuição do coquetel, em 1996, 217 mil internações foram evitadas. Isto significou uma economia de US$ 700 milhões de dólares para o sistema de saúde. Tais conquistas mereceram o reconhecimento internacional. O Ministério da Saúde recebeu, em 2001, elogios da Organização das Nações Unidas (ONU).
A Far-Manguinhos, da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), produziu em 2001 oito dos 12 medicamentos do coquetel anti-Aids distribuído gratuitamente pelo Ministério da Saúde a cerca de 100 mil pessoas. O Brasil propôs uma flexibilização do Tratado Internacional de Propriedade Intelectual (Trips) nos casos de grande benefício social ou estado de emergência. Isso fez com que os Estados Unidos recorressem à Organização Mundial do Comércio (OMC), sob a alegativa de que as legislação brasileira violava as leis internacionais de patentes. O Brasil obteve duas vitórias históricas nessa questão: em maio de 2001, quando a Assembléia Mundial de Saúde aprovou por unanimidade a proposta brasileira que define o acesso aos medicamentos para a Aids como direito humano fundamental e, em junho do mesmo ano, quando os EUA retiraram a queixa apresentada na OMC.
São passos significativos dados pelo Brasil na luta contra um dos maiores flagelos da humanidade. É preciso, no entanto, que a euforia com os resultados positivos dessa política não seja ofuscada com o crescimento dos casos de Aids, principalmente entre a população jovem. Mais do que nunca, a hora é de prevenir.