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 Moçambique
Invisíveis e não pagas
PLUSNEWS 28 de Fevereiro de 2006, Maputo, Moçambique - Como é que se valoriza o trabalho das mulheres moçambicanas que cuidam dos doentes da SIDA, em casa ou na comunidade, se não existe uma palavra adequada para descrever essa tarefa?
Fala-se de “voluntários” e “activistas”, mas o sentido dessas palavras é muito abrangente. Não dá uma ideia do trabalho geralmente feito por mulheres e raparigas, quase sempre gratuitamente.
Não existem em português termos como “caregivers” ou “home-based care” em inglês -- provedoras de cuidados, aquelas que lavam, limpam, alimentam, dão medicamentos, tratam as feridas, e, por último, mas não menos importante, dão apoio espiritual e afecto.
Esse foi um dos temas debatidos segunda e terça-feira passadas por 18 funcionários do governo, ONGs e jornalistas, num workshop, em Maputo, organizado pela GenderLinks e Género e Media na Africa Austral (Gemsa, acrónimo em inglês).
A reunião analisou como desenvolver uma política sobre este trabalho “sem nome”, invisível e gratuito.
“A terminologia é definitivamente importante. Como chamamos, que nome atribuimos, influencia como percebemos e valorizamos”, disse ao PlusNews a directora executiva do Gemsa, Kubi Rama.
As discussões basearam-se num estudo feito pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) em Moçambique, Botswana, Suazilândia e Zimbabwe sobre a contribuição das mulheres no atendimento aos doentes de SIDA.
O estudo, “Porquê preocuparmo-nos com as provedoras de cuidados não pagas?”(Why should we care about unpaid carework?), feito pela pesquisadora Debbie Budlender, revela que existem na África sub-Saariana 4.3 milhões de doentes, quase todos com SIDA, que precisam de cuidados domiciliares.
E 90 por cento destes cuidados são proporcionados por mulheres e raparigas a custo de abandonarem a escola, machamba e mercado, o que é uma sobrecarga ao trabalho feminino.
A saida das raparigas da escola – enquanto os seus irmãos são os últimos a abandonar os estudos – perpetua o ciclo de ignorância e pobreza entre as mulheres.
Enquanto a epidemia avança, as ONGS e igrejas organizam equipas de voluntários (leia-se voluntárias) para assistir as comunidades.
“É uma solução de emergência para uma crise, mas devemos procurar soluções complementares, tais como subsidiar as provedoras de cuidados,” disse o jornalista Marciano Mubai, representante do Gemsa em Moçambique e organizador do workshop.
De acordo com Mubai, a outra possibilidade é a segurança social garantir este tipo de assistência domiciliária aos contribuintes.
Alguns participantes questionaram se o estado sente menos o impacto dramático da epidemia - segundo Rama, “a urgência da emergencia” - porque as mulheres contribuem com o seu trabalho gratuito. Com isso, o governo fica exonerado de certas responsabilidades para com os cidadãos.
“Qual seria o impacto na sociedade se essas mulheres deixarem de cuidar dos doentes?” pergunta Mubai.
Outra questão é o desenvolvimento cada vez maior de sistemas de saúde privada em Moçambique e em toda a África, que servem à crescente classe média.
Isto faz com que os profissionais da saúde abandonem as instituições estatais para trabalharem no sector privado, incluindo as ONGs que prestam assistência médica.
Dependendo da instituição, as provedoras de cuidados, as vezes, recebem algum incentivo ou mínimo pagamento. Mesmo aqui, existem discrepâncias agudas no que as instituições pagam, o que remete novamente ao problema de valorização deste trabalho.
A reunião reflectiu sobre que outro tipo de trabalho remunerado seria equiparável, e achou que seria o de uma enfermeira assistente.
Quando este trabalho das mulheres é remunerado, aparecem os homens, de outra forma quase ausentes. Isto acontece em Moçambique e noutros países da África Austral.
Outro problema é a ausencia de regulamentação, apoio psicológico e formação padronizada neste trabalho.
“Pensamos muito nos doentes da SIDA e menos em que os cuida”, disse Mubai.
O facto de o governo ter participado na reunião juntamente com ONGs indica a sua preocupação em relação ao assunto.
“Notamos uma convergência de interesse na procura de soluções”, conclui Rama.
Assim, o trabalho sem nome poderá ser reconhecido e retribuido.
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