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 Angola
A AIDS é uma doença econômica
Manoel Fernandes 11 de Julho 2005, Revista Dinheiro, Angola - O médico americano Robert Gallo, 67, transformou uma perda pessoal – a morte da irmã de seis anos por leucemia – no combustível que o levou a fazer uma das maiores descobertas do século XX. Em 1983, na condição de pesquisador do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, Gallo, ao lado do pesquisador do Instituto Pasteur, Luc Montaigner, revelou ao mundo que um vírus era o responsável pela AIDS.
A descoberta mudou a trajetória das pesquisas que buscavam identificar as causas da nascente epidemia e que hoje é um dos principais problemas de saúde nos países ricos e pobres. Na segunda-feira, dia 18, o cientista desembarca no Brasil para participar de um Fórum sobre a AIDS - As novas descobertas e o modelo brasileiro de assistência. O evento será realizado em São Paulo, no Hotel Renaissance, com o apoio da revista DINHEIRO, da Editora Três.
Na entrevista a seguir, Gallo, hoje diretor do Instituto de Virologia Humana da Universidade de Maryland, fala da responsabilidade dos laboratórios em equilibrar os lucros com as vendas dos remédios contra a moléstia e o contexto social da doença, em especial nos países mais pobres. Ele diz que a AIDS é um flagelo que está dizimando nações na áfrica e que todos devem socorrer o continente, inclusive o Brasil.
DINHEIRO – A AIDS é um flagelo social e de profundo impacto econômico para toda a humanidade. Qual a sua avaliação das conseqüências da epidemia para as economias?
ROBERT GALLO – Números não são muito o meu negócio. A ciência é. Mesmo assim, não há como fechar os olhos para essa questão. A AIDS é uma doença econômica. Não é preciso ser economista para analisar suas conseqüências para a economia de nações e continentes. Ninguém está blindado ao problema, dos países mais ricos aos mais pobres. Mesmo nos Estados Unidos é possível detectar os efeitos da doença nas corporações e no sistema de saúde. Nos Estados com grandes cidades, por exemplo, a doença já se instalou na máquina administrativa e suga recursos no combate ao mal e em campanhas de prevenção. O mesmo, suponho, deve ocorrer em menor magnitude no Brasil, que sendo um país com menos recursos para assistir aos seus habitantes necessita reservar uma parcela do orçamento para gastar no combate à AIDS. Em todos os lugares esse é o maior impacto. Mas não podemos esquecer da previdência social. A estrutura de saúde pública e privada está sobrecarregada com o tratamento, os custos dos remédios e todas as outras despesas relativas ao assunto. Diante de tal quadro de números, imagino como a doença pode afetar economias inteiras, mas deixo uma análise mais detalhada para os economistas.
DINHEIRO – Quem mais sofre os efeitos da AIDS?
GALLO – Nada é comparável ao que acontece na áfrica, o continente mais castigado pela epidemia. Desde a década de 80, a expectativa de vida está caindo assustadoramente e o desenvolvimento econômico de muitos dos países – principalmente os países da áfrica sub-saariana - tem sido comprometido por causa da doença. é um flagelo social e econômico que precisa ter a atenção mundial. Sem a ajuda internacional não há como ajudar as nações africanas a resolver este problema. A áfrica deve ser hoje a prioridade mundial porque lá a epidemia cresce a taxas bem acima da média mundial.
DINHEIRO – Passados 25 anos da sua descoberta, a AIDS segue assustando. Por que os países ricos ignoram a AIDS nas nações mais pobres do planeta?
GALLO – Não é bem assim. Os EUA não ignoram o problema nos países pobres. Recentemente, o governo americano destinou bilhões de dólares para ajudar a áfrica a combater a doença. Você pode me perguntar: isso é suficiente? E eu direi: não. Então, seria preciso questionar o governo de cada um dos países ricos sobre o que eles estão fazendo para ajudar populações como a de países africanos. Veja o caso do Brasil. Vocês são mais ricos do que a Guiana e o Haiti, por exemplo. O Brasil está ajudando estes países a enfrentar o problema da AIDS? Podemos concluir então que nenhum país está fazendo o suficiente para lidar com este problema mundial uma vez que a Aids ainda assusta. A ajuda de todos pode ser o diferencial que ainda está faltando para enfrentar essa epidemia.
DINHEIRO – Por que as nações mais pobres estão entre as mais atingidas?
GALLO – A AIDS ataca ricos e pobres, mas nas nações pobres há uma conjunção de fatores que torna o campo fértil para o desenvolvimento da doença: há falta de infra-estrutura, de profissionais treinados para tratar os pacientes soropositivos, alta incidência de dependentes de drogas injetáveis e baixos níveis educacionais, que acarreta menor eficácia das campanhas de prevenção. Quando um país trata a AIDS com eficácia, reduz-se a quantidade de vírus em circulação e, por conseqüência, a possibilidade de mais pessoas serem contaminadas. Em casos contrários, nos quais os doentes não recebem os tratamentos adequados, a carga viral no ambiente aumenta as possibilidades de transmissão da doença.
DINHEIRO – O sr. acompanhou a queda de braço entre o governo brasileiro e o laboratório Abbott em relação à quebra da patente do anti-retroviral Kaletra?
GALLO – Não tenho acompanhado de perto a disputa entre o Brasil e a empresa.
DINHEIRO – Quebrar a patente de um remédio que custou bilhões de dólares de investimento a quem o produziu não fere os princípios elementares das leis de mercado?
GALLO – O respeito às patentes é como o respeito às regras de outros setores da sociedade. Quebrá-las significa criar problemas para todos. No jornalismo, por exemplo, se você não respeita as regras, não há jornalismo. O mesmo acontece com as leis. é preciso respeitá-las para que a sociedade caminhe em harmonia. O que acontece, contudo, é que estamos diante de uma encruzilhada. Devemos respeitar as regras para garantir o retorno dos bilhões de dólares que os laboratórios investiram na pesquisa de novos remédios e dessa forma garantir que o sistema busque descobertas. Mas é preciso ter uma sensibilidade com a questão social. Não há como ignorar que muitos doentes não conseguem ter acesso aos remédios. O que devemos fazer como sociedade é buscar esse equilíbrio. Os laboratórios devem ter o retorno sobre os seus investimentos e, ao mesmo tempo, ajudar os países pobres a atacar a epidemia. Sou otimista e acredito que as empresas chegarão a um modelo de negócio que vai satisfazer as necessidades de caixa e a ajuda aos mais necessitados.
DINHEIRO – Qual é a sua opinião sobre o programa brasileiro de combate à AIDS?
GALLO – Não conheço tão bem como deveria, mas tenho um bom amigo aí no Brasil, o médico Drauzio Varella, que tem me falado sobre assunto e me dado boas notícias. Vou encontrar este amigo em breve e espero me aprofundar mais no tema.
DINHEIRO – Qual será o próximo desafio das pesquisas para tentar resolver os males da AIDS no planeta?
GALLO – Na questão social, a meta será criar instrumentos de ajuda para que os mais pobres tenham direito ao tratamento de saúde de qualidade, acesso à hospitais equipados e equipes médicas bem treinadas. Do ponto de vista científico, o próximo desafio é descobrir uma vacina que combata a doença. Nem estamos perto ainda, mas devemos continuar insistindo.
DINHEIRO – Quando teremos uma vacina contra a AIDS?
GALLO – Ninguém no mundo pode dizer quando. Acredito que o caminho para o desenvolvimento da vacina está no aprofundamento do conhecimento da natureza do vírus e na compreensão de como seriam os mecanismos para bloquear sua ação. Esta linha de pesquisa tem tido progressos nos últimos seis anos e isso nos dá a esperança de que a vacina é viável. Se você me fizer de novo esta pergunta daqui a uns três, quatro anos, talvez eu possa fazer um prognóstico.
DINHEIRO – é possível deter o vírus?
GALLO – Hoje é possível deter o vírus se o doente recebe tratamento adequado e contínuo. Não se pode curar o portador do vírus, mas é possível evitar a morte iminente.
DINHEIRO – O criador da internet, o britânico Tim Bernners-Lee, assim como o Sr., não ganhou dinheiro ou ficou milionário com a sua descoberta. Na sua carreira esse é um motivo de arrependimento?
GALLO – Quando estava envolvido na pesquisa do vírus nunca parei para pensar nesse assunto. Acho que fiz o meu trabalho da melhor maneira possível. Na época da descoberta, eu e minha equipe fomos orientados a patentear o teste de sangue para detectar a AIDS. Era necessário para evitar a fraude na produção em massa dos kits e também para tornar a produção do teste atraente aos grandes laboratórios farmacêuticos. Pela primeira vez na história, o Instituto Nacional do Câncer dos EUA, do qual era funcionário, decidiu patentear uma invenção ou resultado de uma pesquisa. Então, patenteamos. Havia centenas de milhões de dólares envolvidos, mas nem eu nem minha equipe ganhamos dinheiro com isso. A patente pertencia ao governo americano.
DINHEIRO – Isso continua assim até hoje?
GALLO – Dois anos depois da decisão de patentear o teste de AIDS, o presidente Ronald Reagan (1981-1989) promoveu uma profunda alteração na legislação para permitir aos pesquisadores de instituições públicas, que realizassem grandes descobertas, tivessem o direito à royalties. Foi um grande avanço e estímulo para uma geração que estava ingressando nesse mundo, mas quero deixar claro que o objetivo da ciência não é ganhar dinheiro. A partir desse momento, eu a minha equipe passamos a receber algum dinheiro, mas nada que nos transformassem em milionários. Essa nunca foi a nossa intenção durante os anos da pesquisa. Os cientistas do governo tinham objetivos bem definidos e os royalties nunca estiveram em primeiro lugar na busca por remédios e descobertas que ajudassem as pessoas.
DINHEIRO – Mesmo sem dinheiro, o sr. garantiu o seu lugar na história...
GALLO – é, isso é bastante gratificante, mas só ficarei plenamente satisfeito no dia em que a AIDS se transformar em um mal do passado, que não comprometa mais o presente nem o futuro da humanidade. O que eu e a minha equipe fizemos importante, mas a guerra contra o vírus certamente ainda terá muitas batalhas pela frente.
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