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 Cabo Verde
Como Educar para a Sexualidade
José Teixeira Setembro 2002, enviado por Jaqueline Pereira, Cabo Verde - Numa das novelas que se passou na nossa TV, em Cabo Verde Fabinho de 11 anos era o nome do garoto que juntamente com seu amigo via um filme pornográfico. O senhor responsável pela academia descobriu e resolveu dar-lhes uma aula de Educação Sexual. Quando começou a falar do pénis e a vagina, os garotos continuaram-lhe o assunto descrevendo o processo completo de reprodução o mais rápido que puderam. O senhor ficou tão espantado quanto maravilhado. Porém, imediatamente, os garotos pediram-lhe que saísse do quarto. Como se pode ver, a sexualidade ultrapassa a anatomia orgânica para se situar na anatomia conceptual individual; conceitos de si, do outro e suas relações.
Abordar a Sexualidade nem sempre é fácil e às vezes causa alguma polémica. Geralmente enviesa-se por funções do corpo humano, concepção, métodos anticoncepcionais, prevenção a certas doenças, actos sexuais etc. que são de extrema importância, mas negligencia-se muitas vezes a dimensão afectiva, que é o espaço da relação onde tudo isso ganha sentido e pode ser entendido e usado de forma saudável.
Quando a sexualidade passou a ser examinada pela ciência, no século passado, pensava-se que a sexualidade humana fosse igual à dos animais. Pensava-se que ela só servisse para a reprodução, algo da necessidade biológica instintiva que aparece na época da puberdade. Pensava-se que a sexualidade não tivesse nada a ver com o sentimento, o pensamento, o desejo e as emoções. Que era uma coisa que começa e dura enquanto durar a época que se pode ter filhos, e que só se relacionasse com coisas que têm a ver com o acto sexual. Isto é, que o sexo fosse uma coisa, e o amor, a saúde, o contacto, a comunicação e o afecto, outra. Hoje se sabe que a coisa é bem mais complexa.
Devemos realçar entretanto que a sexualidade não é algo abstracto; porém, sua expressão não deve ser reduzida a manifestações estritamente genitais. Quando é percebido como algo que gira somente em torno do acto sexual, torna um assunto para se começar a discutir na adolescência; e, ao contrario do que muitas vezes se conclui, a sexualidade não começa na adolescência, mas sim na infância; aí reside o motivo da recomendação de o inicio da educação para a sexualidade ser na infância.
É certo que na adolescência, motivada pelas grandes transformações do corpo, a sexualidade ganha expressão nova e é mais exacerbada. Há neste período uma necessidade premente de procura de respostas àquelas perguntas; E quando as escolas e os pais não correspondem às expectativas, os adolescentes procuram os colegas e amigos que muitas vezes também não têm a chave para o segredo. Começam então a agir em função dos estereótipos sociais. Estes normalmente traduzem a hipocrisia da sociedade e acabam aprisionando o jovem a uma grelha de que sozinho não mais saberá libertar-se.
Desde a infância, a família e a sociedade em geral ensinam a esconder os órgãos genitais. Frases como "tira a mão daí" faz do sexo uma coisa proibida e suja; as histórias como a da Cegonha sobre a origem dos Bebes reforçam a necessidade de disfarce. Ou então dizeres como "graças a Deus tive menino, é menos preocupação", que tende a fragmentar o sexo masculino em ser sexuado, e o feminino em assexuado, portanto símbolos da dependência e do poder, respectivamente. Chega a escola onde em vez de prepararem as pessoas para a relação com o outro, se limitam quando muito a falar do espermatozoide que se encontra com o óvulo e faz bebé.
A mídia impõe padrões e supervaloriza o sexo. E muitas vezes aos jovens são impostos conteúdos moralistas que alertam para a sexualidade como algo perigoso e patológico e se procura a contenção do prazer, sem levar em conta os sentimentos e as posturas que cada um tem frente à sexualidade. É assim que os tabus somam-se às normas sociais, e transformam manifestações sexuais em sentimentos de culpa e preconceitos que, por sua vez, geram no jovem desequilíbrios emocionais (ansiedade e preocupação).
No meio desse barulho todo o jovem ainda tem que se preocupar com a possibilidade de gravidez, com o risco de adquirir sérias doenças (como a SIDA). Será possível nesse turbilhão de coisas pensar na prevenção de que tanto se fala? É preciso que, desde cedo, se ensine a criança a se conhecer, a conhecer o seu corpo e seus impulsos uma vez que cada um tem a sua forma particular de expressar a sua sexualidade, de lidar com a saúde e com a vida.
Quando, por exemplo, abordamos um jovem com questões mal resolvidas, ele normalmente não nos revela muita falta de informação, mas questiona sempre, de forma contundente, a sua relação com os pais de ser mais ou menos difícil, com os professores que talvez sejam pouco sensíveis a "isso", ou mesmo com os colegas, vezes simples, vezes ingénuas ou egoístas. Difícil ou fácil! Basta perguntar porque os pais preferem que a escola se encarregue dessa parte para entendermos como não estamos preparados para lidar com sentimentos.
De que capacidades precisamos? Nos parecem ser limitadas as que se tem nas escolas. Porque precisa-se, antes de se iniciar a abordagem a esse tema com os jovens, saber bem e ter um certo domínio da própria sexualidade. Porque, assim como um menino que afaga a mãe seduzindo-a e depositando nela a maior parte da sua afectividade não é entendido por ela como uma pretensão para o acto, os professores também, ao abordar aspectos sexuais com os adolescentes, precisam saber o que fazer com tamanho afecto. Não estando preparados, tendem a transformar a relação sexual em acto sexual ou fogem do fogo. Assim vai-se dizendo, de mais a mais, que em vez de ajudá-los a compreender os incentivam ao acto, à experiência inconsequente.
Precisamos sim de facilitadores, isto é: pessoas que podem incentivar os jovens a falar sobre o que sentem e pensam; que possam desmistificar as crenças, os tabus, os estereótipos que existem sobre os diferentes aspectos da sexualidade; que provocam reflexões críticas sobre os valores da nossa sociedade, especialmente sobre as relações hierárquicas de géneros; que incentivam o despertar do espírito de igualdade e solidariedade. Sobretudo, que saibam aceitar os desafios do despertar do corpo para e sexualidade sem preconceitos hipócritas da sociedade.
É necessário repensar urgentemente nossos valores e começar a falar a língua dos jovens se realmente se quer que os comportamentos mudem - ultrapassando assim a estéril estratégia de jogar pedras aos outros.
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